ANDRÉ MARQUES: UMA HISTÓRIA QUE VALE MAIS DO QUE QUALQUER TROFÉU

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Diante do diagnóstico sem rodeios do médico, a pressão de André Marques literalmente caiu. “Na hora, passei a pensar no campeonato. Aí, passou um filme na cabeça mesmo. Um ano inteiro de trabalho poderia ir embora. O médico da prova, durante o meu transporte para o hospital, já havia me dito que era uma fratura, mas não me disse que seria necessário cirurgia.”

No dia 1º de setembro, na cidade de Rivera, no Uruguai, pela Copa Sul da Copa Truck, na largada da segunda bateria, no fim da reta dos boxes, um acidente entre dois outros competidores fez com que um deles viesse girando e me atingisse bem no eixo dianteiro, ou seja, na roda. Nesse momento, o caminhão fez um movimento muito forte. Eu estava com uma mão só no volante, porque era um ponto de frenagem. A outra mão estava no câmbio. A pressão da colisão pôde ser, em grande medida, sentida no volante, que, na batida, chicoteou. Minha mão esquerda foi puxada para baixo com velocidade e força. Desse movimento brusco, sofri três fraturas no punho”, explica André Marques, piloto profissional de automobilismo, que, dede 2010, disputa na Copa Truck, a principal competição de velocidade envolvendo caminhões do País e da América do Sul. Estamos falando de veículos com quase cinco toneladas que andam a quase 250 km/h.

“No choque, André Marques fraturou o osso rádio distal [região do punho]”, esclarece o ortopedista do Vita, especialista em mão, Dr. João Nakamoto. “Na hora da batida, não sabia que tinha fraturado. Percebi que havia algo de bem errado quando, depois de rodar na pista, fui pegar na direção para colocar o caminhão de volta à prova e minha mão esquerda passou batida pelo volante enquanto a direita o segurou normalmente. Olhei para o meu braço esquerdo e notei que ele estava torto. Nessa hora, o braço começou a doer. Não acreditava que pudesse ser algo tão grave, até porque a dor era suportável.”

Marques, usando apenas a mão direita, levou seu caminhão de toneladas de volta aos boxes. No caminho, recebeu uma comunicação de rádio da equipe pedindo que acelerasse porque estava vivo na prova. “Foi então que expliquei a eles que não seria possível, porque havia me machucado”. Já nos boxes, houve uma natural perplexidade. “Minha única preocupação, realmente, naquele momento, era saber a real gravidade da lesão. Eu nem pensava em campeonato naquela hora. Nunca tinha machucado feio o punho. Fraturei costelas algumas vezes, mas, no automobilismo, isso é normal. É uma lesão mais administrável. Agora, uma lesão no braço é diferente.”

O piloto conta que, naquele momento, só queria sair do autódromo e consultar um ortopedista para saber o que poderia ser feito. Além de torto, seu braço e mão estavam inchados; havia uma considerável limitação de movimentos. “Levaram-me a um hospital no Brasil, em Santana do Livramento [RS], porque o hospital mais próximo no Uruguai era mais distante. Rivera e Santana são cidades de fronteira. Quando cheguei ao hospital, o médico, de imediato, disse: ‘Temos uma fratura aqui e é caso cirúrgico’.”

O Vita na história

Diante do diagnóstico sem rodeios do médico, a pressão de André Marques literalmente caiu. “Na hora, passei a pensar no campeonato. Aí, passou um filme mesmo. Um ano inteiro de trabalho poderia ir embora com aquele braço quebrado. O médico da prova, durante o meu transporte para o hospital, já havia me dito que era uma fratura, mas não me disse que seria necessário cirurgia.”

Foi nesse momento que Marques recebeu uma mensagem do piloto Adalberto Jardim, seu companheiro e adversário na Copa Truck. “Ele havia passado por lesão semelhante e estava me dizendo para procurar o mesmo doutor e clínica pelos quais ele havia passado. Assim, descobri Dr. João Nakamoto e o Vita. Falei com a minha mulher, que estava em São Paulo, e ela entrou em contato com o Dr. Era um domingo à noite e ele foi muito atencioso. Ainda no hospital em Santana do Livramento, ele entrou em contato comigo. Recebeu as minhas informações e as do doutor do hospital e passou-nos as suas orientações.”

Orientado por ele, o médico do hospital em Santana fez apenas uma redução da fratura — procedimento que consiste em recolocar o osso fraturado no lugar e cuja dor Marques diz que não esquecerá tão cedo — e uma imobilização. “Dr. João me disse: ‘Vem rápido para cá e passa amanhã aqui no Vita’.” No dia seguinte, segunda-feira, já em São Paulo, Marques foi ao Vita pela manhã. “Ao me ver, Dr. João me falou: ‘Tenho que operar o quanto antes. Quando você pode?’. ‘Agora’, eu respondi. Então ele me disse que só seria possível no dia seguinte às 7h. Eu concordei na hora.”

Marques conta que, ainda antes da cirurgia, Nakamoto quis saber quando seria a próxima corrida. “Eu disse que em 6 de outubro. Estávamos no dia 2 de setembro. Então, ele me respondeu: ‘Esquece! E a outra?’. Respondi que no dia 26 de outubro… ‘Para essa eu garanto que você vai’.” Mas Marques queria correr no dia 6 de outubro de qualquer maneira. “Fiz a cirurgia na manhã do dia 3 de setembro e, à tarde, encontrei o Dr. João. A primeira coisa que fiz foi perguntar se conseguiria correr no dia 6 de outubro. Ele repetiu que não, mas disse que, para ter alguma chance, eu deveria começar a reabilitação no dia seguinte.”

A insistência de Marques para voltar já na próxima corrida se devia às chances reais de título que ele tinha e que não teria mais se perdesse uma etapa. Antes de começar a prova em Rivera, ele liderava a Copa Truck. Com o abandono, em razão da fratura, ele caíra para a segunda colocação no campeonato. Claramente, havia um conflito entre aspiração esportiva e responsabilidade médica, que se acentuava ainda mais pelo fato de a próxima corrida ser no autódromo de Cascavel (PR), um circuito particularmente desafiador e que tem uma das curvas mais complicadas da Copa: a Curva do Bacião.

A reabilitação

“O retorno para o dia 26 já era, em si, uma meta bastante ousada: exigia da terapia ocupacional e de Marques um grande esforço. Para o dia 6, as chances eram mínimas. O procedimento a que fora submetido André não era simples. Sua cirurgia envolveu a fixação da fratura com placa e parafusos. De qualquer maneira, a equipe do Vita trabalhou pensando na meta de André, ou seja, no dia 6 de outubro, até porque, pela experiência que temos com atletas profissionais, sabemos que a superação de limites é algo comum para eles. O retorno a uma atividade depende do atleta, não podemos controlar, apenas recomendar. O recomendado era dia 26 de outubro, mas nos empenhávamos ao máximo para que ele reunisse condições para guiar no dia 6”, explica Dr. Nakamoto.

Para conseguir o que desejava, Marques teria de trabalhar diariamente. “A reabilitação dele consistiu, na primeira semana, no tratamento do edema e no ganho, paulatino e suave, de amplitude de movimento dos dedos. Nas segunda e na terceira semanas, trabalhamos no ganho de amplitude de movimento para o punho, o que incluiu ganho de pronossupinação [movimento de rotação do antebraço]. Nas terceira e quarta semanas, começamos a trabalhar fortalecimento muscular, já que ele precisaria ser capaz de segurar com firmeza o volante de um veículo de quase cinco toneladas”, explica a terapeuta ocupacional que cuidou da reabilitação de Marques no Vita, Raquel Ferraz Luz.

A última fase do tratamento, segundo Raquel, tem consistido — afinal, ela segue sendo realizada — em ampliar a flexoextensão do punho e fortalecê-lo ainda mais, de modo que seja capaz de suportar carga similar à suportada pelo punho direito, que não foi lesionado.

Marques conta que as primeiras quatro semanas foram as mais desafiadoras. Afinal, apesar de todas as recomendações médicas, ele queria retornar à pista no dia 6 de outubro, em Cascavel. “Fazia reabilitação de segunda a sexta no Vita e, aos fins de semana, fazia a lição de casa que Raquel me passava. Doía muito, mas ver a velocidade com que minha mão e punho melhoravam fazia tudo valer a pena.”

Dia 6 de outubro

Apesar de todo o empenho na reabilitação, Marques não conseguiu autorização médica para correr a prova do dia 6 de outubro, mesmo assim, foi para Cascavel. “Eu disse ao Dr. João que precisava acompanhar o time e que não sabia se iria correr. Então, ele falou: ‘A responsabilidade é sua. Se houver outro acidente, a intercorrência será inevitável. Tudo vai ser ainda mais difícil. Lesão em cima de lesão é pior. Eu não posso impedi-lo de correr, mas você precisa ter consciência que, do ponto de vista médico, não deve fazer. Mas essa decisão, no fim das contas, é só sua’.”

Na quinta, contudo, houve um treino excepcional; geralmente, os treinos ocorrem apenas às sextas e sábados. “Resolvi fazer um teste. Pedi autorização para a equipe de prova e eles me autorizaram. Dei duas voltas e vi que dava para guiar. Não tinha 100% de mobilidade, mas dava. Na sexta, fiz, pela manhã, a inscrição para disputar a prova. Na sexta, no primeiro treino, fui o mais rápido. Aí, liguei para o Dr. João para avisar que eu ia correr. Disse a ele que meu braço estava melhor do que antes. Expliquei que era o mais rápido dos treinos e ele me respondeu com uma cara brava no WhatsApp.”

Marques conta que todas as provas são especiais e deixam lembranças, porém, essa, com certeza, foi uma das mais memoráveis de sua carreira. “Com tudo o que havia acontecido, essa participação, por si só, foi uma vitória. Não queria perder a oportunidade de brigar pelo campeonato. Lideramos os treinos e no sábado eu fiz a ‘pole’ [de pole position, volta mais rápida que garante a primeira colocação na largada]. Dentro do caminhão, antes de regressar aos boxes, eu já estava chorando. Quando cheguei aos boxes, foi demais ver toda a equipe vibrando!”

Para completar, Marques faria aniversário na segunda-feira, dia 7 de outubro. “Independentemente do resultado da prova, eu já tinha ganhado o meu presente de aniversário. Vencer uma prova envolve vários fatores que independem do piloto. Numa pole, não. Numa pole, o piloto tem mais méritos. Por isso, ela traz aquela sensação de ‘fui o mais rápido de todos’, ainda mais nas circunstâncias em que eu a conquistei, ainda mais sendo a minha primeira pole no ano. A verdade é que, se não fosse todo o empenho da equipe do Vita, eu jamais conseguiria viver um fim de semana tão especial e cheio de significado como o do dia 6 de outubro.”

Durante a prova, Marques teve de lidar com uma inesperada chuva no curso da disputa e, nesse caso, com o punho ainda debilitado e o caminhão preparado para correr no seco, ficou difícil manter a primeira colocação. “Liderei por um bom tempo, mas acabei perdendo duas posições e terminei a primeira prova em terceiro. Depois, teve a segunda prova. Com a inversão de grid, os oito primeiros colocados da primeira prova invertem suas posições para a largada da segunda. Assim, larguei em quinto e terminei a segunda bateria em quarto. Foi um fim de semana incrível. Depois de tudo o que passei, estava no pódio e vivo na briga pelo título.”

Como não houve nenhuma intercorrência em Cascavel, o que não impediu Marque de levar uma dura do Dr. Nakamoto ao retornar a São Paulo, a reabilitação seguiu normalmente e, no dia 26 de outubro, ele voltou ao volante do caminhão para a disputa da penúltima etapa da Copa Truck. “Voltei ao pódio naquele fim de semana, mas não ultrapassei Beto Monteiro na corrida pelo título. Fiquei 14 pontos atrás dele. De qualquer maneira, ainda tinha chances reais de título na última prova do ano, que seria disputada em São Paulo [SP], no autódromo de Interlagos, no dia 8 de dezembro.”

A Superfinal em Interlagos

Com o punho bem melhor do que estivera nas duas etapas anteriores, às 14h do dia 8 de dezembro, um domingo ensolarado em Interlagos, Marques largou, na oitava posição, num grid com 26 pilotos — sendo que seis tinham chances de título —, para a primeira das duas baterias da Superfinal da Copa Truck.  

Durante todo o fim de semana, Marques teve de conviver com problemas mecânicos em seu caminhão, o que não lhe permitiu conseguir uma boa posição de largada. O oitavo lugar nos treinos estava bem distante do que ele queria e esperava. Ainda assim, estava visivelmente disposto. Aos amigos que lhe desejavam boa sorte nos boxes, antes de se posicionar para a largada, ele dizia: “Vamos com tudo!”. E assim ele foi para o grid…

Logo na largada da primeira bateria, Marques ganhou duas posições. Ao longo da prova, ganhou mais uma e a terminou em quinto. Apesar de ter ganhado três posições, o resultado não o aproximava de seu objetivo, já que Beto Monteiro, o líder do campeonato, havia terminado a primeira prova em segundo.

Na segunda bateria, largando em terceiro, Marques teve mais dificuldades. Perdeu posições nas primeiras voltas. Seu caminhão apresentava queda de rendimento de forma tão evidente que, em dado momento da prova, seu principal objetivo passou a ser o de garantir pontos suficientes para não perder o vice-campeonato.

Há algumas voltas do fim, quando tentava ganhar a quinta colocação — lugar que lhe garantiria o vice-campeonato naquele momento, considerando a disposição dos pilotos —, o motor do caminhão de Felipe Giaffone, que estava bem à sua frente, explodiu e jogou óleo na pista e no caminhão de Marques, que só teve tempo de desviar para não acertar a traseira do colega em cheio. O movimento, contudo, o fez perder a traseira…

Os pilotos que vinham atrás de Marques fizeram um esforço enorme para não bater em seu caminhão, que estava rodando na pista. Com muita habilidade, antes de chegar à brita, Marques controlou seu veículo de cinco toneladas e conseguiu devolvê-lo à prova, num verdadeiro batismo de fogo para o punho recém-operado. Assim, cruzou a linha de chegada em quinto e garantiu o vice-campeonato.

Parecia pouco para quem disputava o título, mas, conhecendo tudo o que ele fez para ter esperança até o fim, não era. Por isso, os integrantes de sua equipe se abraçavam visivelmente emocionados nos boxes ao vê-lo cruzar a linha de chegada… Marques chegou aos boxes para encontrar seus companheiros de time, esposa e filhos. Estava chorando, era possível notar mesmo antes de tirar o capacete. A história que acabara de escrever, valia mais do que qualquer troféu.

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