DANIEL DE OLIVEIRA FAZ AVALIAÇÃO DE CORRIDA NO VITA E NOS CONTA SUA INCRÍVEL HISTÓRIA

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Com um título mundial de ultratriatlo no currículo, prova que equivale a cinco Iroman de uma só vez, o ultra-atleta Daniel de Oliveira esteve no Laboratório de Performance do Movimento (LPM) do Vita, onde passou por uma avaliação biomecânica para encontrar possíveis pontos de ajuste em sua corrida. Aproveitamos sua presença para entender que segredo “esconde” o ultra-atleta.

A história do ultra-atleta Daniel de Oliveira é daquelas que reforçam a ideia de que nossos limites estão muito mais em nossa cabeça do que fora. “A maioria das pessoas foram treinadas para ficar no nível médio e eu sempre estive muito abaixo do nível médio. Sofri muito bullying na infância e adolescência; era um zero à esquerda em desempenho esportivo, relacionamentos e amizades. Para me afirmar, passei a buscar feitos cada vez mais bizarros. Costumo dizer que, aos 14 anos, eu ‘nasci’: de repente, me dei conta de poderia fazer qualquer coisa que eu escolhesse fazer.”

O ultramaratonista Daniel de Oliveira correu 36 horas em prol da Associação de Amigos, Pais e Portadores de Mielomeligoncele.

Antes de seguir contando essa história, é importante explicar o que faz um ultra-atleta. Oliveira, por exemplo, em 2016, sagrou-se campeão mundial de ultratriatlo. Ele percorreu o equivalente a cinco vezes um Iroman. Traduzindo em quilômetros: 19 km de natação, 900 de pedal e 210 de corrida. Na ocasião, Oliveira percorreu isso tudo em pouco mais de quatro dias, com apenas três horas de sono no total, superando 11 adversários.

No ano seguinte, em 2017, Oliveira conseguiria o vice-campeonato no deca-Iroman: 38 km de natação, 1.800 de bicicleta e 420 de corrida, respectivamente. O próximo desafio dele, marcado para novembro, é um duplo deca-Iroman: 20 vezes o Iroman, ou seja, 76 km de natação, 3.600 de pedal e 840 de corrida. Até hoje, só quatro pessoas conseguiram completar um duplo deca-Iroman.

“Sub influência de amigos esportistas, na adolescência, fui vendo que era possível superar o que diziam ser os nossos limites. A primeira vez que fiz uma distância de ‘ultra’ foi andando: fui da minha cidade [Blumenau-SC, onde vive desde a infância, embora tenha nascido em Itaguaí, RJ] até a praia [Bombinhas-SC]. Minha família não tinha carro e eu imaginei que fosse perfeitamente possível andar 100 quilômetros. Foi o que fiz. Levei 27 horas e, depois, jurei que nunca mais faria isso, porque me doíam músculos que eu nem sabia que existiam.”

Porém, Oliveira acabou fazendo “essa loucura mais onze vezes”, doze no total, e, sempre que terminava a travessia, prometia a si mesmo que não voltaria a fazê-la. Depois da 12ª vez, contudo, o futuro ultra-atleta leu o livro “Ultramarathon Man: Confessions of an All-Night Runner”, escrito pelo ultramaratonista Dean Karnazes, no qual conta a história da ultramaratona.

“Li o livro em uma semana e, depois de doze semanas de treino, fiz os mesmos 100 quilômetros, que havia feito 12 vezes andando, agora, correndo. Levei 11 horas e 15 minutos. Cheguei inteiraço na praia: foi lindo! Assim, começou, porque, ao correr 100 quilômetros pela primeira vez, confirmei aquilo que pensava desde os 15 anos: sou capaz de tudo o que eu quiser.”

Oliveira esteve no Laboratório de Performance do Movimento (LPM) do Vita, onde passou por uma avaliação biomecânica, supervisionado pela fisioterapeuta do Vita e gestora do LPM, Andreia Miana, com a finalidade de encontrar pontos de ajuste em seus gestos de corrida. “Ele é um atleta fantástico. Seu diferencial, sem dúvida, é mentalidade que tem. Contribuir, de alguma forma, para melhorar seu desempenho com a ciência do Vita será motivo de muito orgulho.”

Conheça um pouco mais da história de Oliveira e de como pensa esse ultra-atleta brasileiro, que tivemos o privilégio de entrevistar…

Já pensou em ser outra coisa da vida?

Eu nunca pensei em ser atleta e, por isso, quando me chamam de atleta eu acho estranho. Mesmo hoje, eu não treino igual a um atleta nem me alimento como um atleta. Eu não tenho um estilo de vida que possa ser considerado o de um atleta. Eu pareço mais um antiatleta. Tudo o que eu faço no dia a dia funciona como um treinamento. Para ilustrar o que eu digo, costumo usar o seguinte exemplo: se vou a uma festa e fico até as 3h ou 4h da manhã, não tem problema nenhum, desde que eu chegue em casa, coloque uma roupa apropriada e um tênis e vá correr. A festa vira parte do treinamento. Mesmo depois de ter bebido álcool, mesmo sem dormir, ou seja, depois de fazer coisas que dificultam o treino, ainda assim, o treino é possível. Tenho feito bastante isso: transformar os eventos sociais em parte do treinamento. Funciona muito bem, porque, na prova, eu não tenho o sentimento de batalha, de guerra, vejo tudo como uma grande festa e posso fazer as distâncias com um sorriso no rosto: essa é a sacada.

Parece evidente que faz bem-feito o que faz porque você ama fazer. É possível fazer bem algo que não se ama?

O amor não é simplesmente pela corrida. O amor é pelo estilo de vida. É uma resposta à rejeição e à opressão que eu sofri na infância. Foi assim que consegui florescer e fazer coisas que parecem impossíveis. No fim, o que amo mesmo é mostrar às pessoas, pelo meu exemplo, que elas também podem. É isso que eu amo. Amo mostrar que fraqueza, falta de tempo, de dinheiro e apoio não são empecilhos, mas alavancas para que se alcance seus objetivos. É isso que amo fazer. É muito mais gratificante a realização das pessoas que já treinaram comigo ou ainda treinam do que as minhas próprias realizações. Até porque, quando eu faço algo extraordinário, as pessoas dizem que eu tenho uma genética favorável, que sou diferente e vejo isso como um insulto, porque foi muito trabalhoso chegar aonde cheguei. Esse espaço que me dão é importante, para que as pessoas saibam mais sobre a ultramaratona. Durante tantos anos, fomos ensinados que a maratona representava o limite do homem. Outro insulto. Quem disse? Quem estabelece esse limite? É muito importante ter alguém nos dizendo que podemos superar esse limite. Às vezes, as pessoas só precisam disso.

Qual foi sua grande conquista? Não é um título nem um prêmio. Uma conquista íntima, mesmo.

Minha grande conquista é resultado dos feitos que eu obtive como ultra-atleta. Estou falando da primeira vez que eu fiz uma palestra grande, depois de ter conquistado o campeonato mundial, em 2016. Eu fiz uma palestra no teatro da minha cidade [Blumenau] para 1.040 pessoas, que foram lá, exclusivamente, para ouvir a minha história. Quando as cortinas do teatro se abriram, eu entrei e vi aquela multidão aplaudindo e assobiando… Comecei a chorar. Foi brutalmente emocionante. Era a minha existência sendo justificada. Eu não fiz tudo o que fiz esperando a resposta, mas é claro que receber a resposta é magnífico. Sempre que eu sofro um revés, não termino uma prova, perco, enfim, a primeira ideia que me ocorre é desistir de fazer, porque é caro, exige muita dedicação e dor. Mas, logo, caio na real e constato que eu faço o que faço pela minha vida: não é para ganhar título, nem medalha nem tapinha nas costas. É simplesmente porque eu amo poder fazer o que eu faço.

As dificuldades para fazer o que faz são evidentes e é inevitável pensar que você deve ter muitos problemas com lesões. Você sofre muitas lesões? 

Eu nunca me machuquei seriamente. Costumo dizer que eu não me machuco. Para não dizer que não me machuco, em 2017, eu sofri um acidente, uma queda de bicicleta que resultou em rotura parcial do tendão do calcâneo, mas, como se vê, foi fruto de um acidente e não do excesso de treinamento, como as pessoas costumam acreditar que sejam as causas das minhas lesões. Aliás, vale dizer, eu treino pouco para o que eu faço. A razão, já expliquei: a vida que levo já serve de treinamento, já impõe, por si, preparação. Talvez essa pouca ocorrência de lesões tenha a ver com o fato de, dos 15 aos 20 anos, eu ter feito muita musculação. Aos 20 anos, eu era muito forte, um cavalo: fazia supino reto com 150 kg, agachava com 200 kg em séries de dez. Talvez essa base de musculação tenha me preparado para o que estava por vir, já que, naquela época, eu não corria. Antes da musculação, eu havia feito um pouco de atletismo e tido, num nível leve, canelite. No começo da ultramaratona, ela me incomodou um pouco, mas, depois de um evento 300 quilômetros, ela foi embora e nunca mais voltou.

O segredo para poucas lesões é a sua mentalidade?

Para mim, está muito claro que lesões musculares são resultado de estresse e tensão, o que procuro não ter, de maneira nenhuma, nas minhas provas. Toda lesão vem da rigidez. Um corpo relaxado dificilmente se lesiona. Em 2017, quando sofri o acidente e me lesionei, houve erros por parte da organização da prova e isso gerou um estresse, em mim, que nunca tinha experimentado em provas. Eu tive, na ocasião, de brigar com a organização e eu perdi totalmente o meu poder de foco e caí da bicicleta. A ansiedade, pensar no fim da prova, no resultado, também gera rigidez. Tenciona-se músculos, articulações e tendões e, quando você precisa fazer força, a sobrecarga acaba sendo maior do que seria se estivesse relaxado. Por isso, eu sempre digo que o treinamento mental é mais importante do que o treinamento físico. A pessoa precisa se manter focada no que tem de fazer e não no medo que sente do desconhecido. O foco absoluto no rendimento também tenciona e pode ser um problema, causando mais risco e chance de lesão. Conheço pessoas que competem 10 quilômetros e não passam seis meses sem sofrer uma lesão.

Mas você é um competidor e busca resultados, certo?

É importante dizer que eu corro em intensidades muito baixas. Eu sou o devagar e sempre. Então, quanto mais relaxado eu estiver, mais longe eu consigo ir. Eu penso assim, vou correr um quilômetro por vez. Não vou pensar nos 400 quilômetros que tenho de fazer. É impossível correr isso. Agora, um quilômetro é possível e, quando o agora é bem-feito, o depois está garantido. É assim na corrida e sempre vai ser na vida. Por isso, é tão importante a prática do esporte não apenas para atletas profissionais, mas para a vida. O esporte não deve ser uma finalidade, mas um caminho para se viver melhor. Você treina para viver com mais qualidade, para ter mais longevidade, para manter as doenças distantes e reduzir os riscos de lesões. Se o esporte lhe traz lesões, é melhor trocar de modalidade ou repensar por que está fazendo esse esporte.

Afinal, qual é o seu estilo de vida: sono, alimentação, bebida, eventos sociais?

Eu durmo, em média, quatro horas por noite. A minha vida social está cada vez mais intensa, tenho saído cada vez mais. Os eventos sociais ajudam nos eventos competitivos, é o contrário do que sempre nos disseram. Em termos de alimentação, como praticamente qualquer coisa.

Tudo o que nos diz é no sentido de que qualquer um pode ser “ultra”…

Eu acredito. Há uma conquista que considero bastante relevante. Quando minha mãe tinha 48 anos, sedentária a vida toda, fumante desde os 15 anos e bebedora de café compulsiva, eu notei que ela estava muito fraca. Ela foi apertar a minha mão e eu não conseguia sentir essa intenção. Na hora, eu disse a ela que precisava começar a fazer musculação e correr. Ela disse que não sabia correr. Falei: “Vou te ensinar”. No primeiro treino, ela não conseguiu correr um minuto. Ela literalmente sobreviveu para chegar a um minuto. Comecei a treiná-la todos os dias, de segunda a sexta, entre 20 e 30 minutos por dia. Com um mês de treino, ela correu três quilômetros sem parar; com dois, sete quilômetros, e, com quatro meses, 21 quilômetros sem caminhar. Em quatro meses, saiu do sedentarismo total para 21 quilômetros de corrida. Dentro dela havia os requisitos necessários para fazer o que ela havia escolhido. Ela acreditou e interiorizou a ideia e todas as células do corpo dela responderam de forma positiva. Depois disso, ela fez várias meias maratonas e corria mais rápido que meninas com a metade da idade dela.

Qual é a melhor e qual é a pior parte de ser um ultra?

Me alegra muito ver pessoas darem upgrades ou saírem do sedentarismo inspirados na minha história. Isso é muito gratificante e uma das coisas que me movem. Essa é a melhor parte. A pior é a incompreensão. Num contexto de muitos sacrifícios, treino duro, uma vida dedicada à atividade, investimentos próprios, as pessoas são incapazes de compreender, por exemplo, um fracasso, uma desistência, uma derrota. Como eu lido com muita naturalidade com esses desafios, as pessoas acham que eu sou infalível. É como se dissessem: “Nossa, ele que disse que era infalível, falhou”. Mas eu nunca disse que era infalível. Eu não digo que é fácil, apenas que é possível. Então, lidar com essa cobrança, fruto, também, da falta de praticantes dessa modalidade no País e de pessoas capazes de entender o que faço, é um dos aspectos mais difíceis dessa escolha.

Qual é o seu limite?

Ainda quero descobrir. Neste ano, farei a prova mais desafiadora da minha vida, a mais difícil do mundo, só quatro pessoas, até hoje, conseguiram completá-la. Estou falando dos 20 Iroman seguidos, o doble deca-Iroman. Terei de nadar 76 quilômetros, pedalar 3.600 e correr 840, tudo de forma contínua. Serei o primeiro brasileiro da história a fazer e uma das pouquíssimas pessoas do mundo a conseguir. Como quatro pessoas já conseguiram, a gente sabe que é possível. A questão é: enquanto tempo isso é possível? Eu tinha colocado, em minhas metas, que esta seria a minha prova mais longa de triatlo. Para o ano que vem, planejei escalar montanhas, um negócio que sempre gostei de fazer, mas que estava um pouco distante. Agora, tenho amigos com os contatos necessários para viabilizar essa antiga vontade. A princípio, é isso, mas tudo pode mudar, sempre. Também não acredito que eu vá abandonar o triatlo, porque é algo que gosto muito de fazer.

Você gostaria de deixar mais alguma mensagem para o nosso público?

A gente se acostumou com a frase: “Eu penso, logo existo”. Isso é uma bobagem. Nossos pensamentos são basicamente resultado de crenças que a gente adotou desde a infância até hoje. Isso não é o que a gente é. Isso permite que a gente tenha um bom convívio social, mas isso não é você: você não é seu trabalho nem as pessoas que lhe rodeiam. Você é o que você sente. Quando você está, de noite, sozinho no seu quarto, sem a influência de mais ninguém, o que você sente a respeito de si mesmo? Que resposta dá quando se olha no espelho e pergunta o que está fazendo aqui e se ama a si mesmo? Eu acho que as pessoas precisam fazer esse tipo de questionamento para terem uma vida mais verdadeira, sincera e feliz. Sem responder a essas perguntas, você não vai saber quem você é e, sem saber quem você é, você pode passar uma vida inteira aqui sem ter vivido realmente, sem experimentar o amor real e a felicidade real. Você só vai experimentar tudo isso quando souber quem você é. Então, a grande mensagem é: conhece quem você é.

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